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Tati
- esporadicamente Tatiane. 21 anos.
Prosa e verso em um só saco de mentiras e verdades.
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coisa séria
a estação de trem do brás estava cheia. sábado, há um ano ou algo assim, e as pessoas passeando, como sempre, de uma plataforma à outra, pelas lojas de biscoitos, revistas, quiquilharias e roupas. uma dessas lojas de roupas sempre me chamou atenção e nesse dia não foi diferente. era sábado, fazia calor e eu estava paquerando uma blusinha azul pintada de branco na vitrine.
entrei na pequena loja e fui até a arara. a blusinha custava 12 reais. um vestido com a mesma e linda estampa saía por 18: pouco pano, todo soltinho em cima, todo grudadinho em baixo.
não era um modelo que eu teria em meu vestuário - lotado de saias compridas -, mas a estampa era demais. o espelho me revelava diferente com ele: mais feminina, mostrando as pernas listadas pelas estrias, toda de azul, uma flor psicodélica. do lado de fora do biombo, a roupa certamente chamaria atenção e magnetizaria olhares de homens e mulheres como quase todas as roupas curtas fazem.
na estação de trem, aquele vestidinho frente única não faria as pessoas gritarem, xingarem ou ficarem indignadas. na vitrine havia muitos outros como aquele, era o início da moda, eu não devia ser a única experimentando. se eu e todas as mulheres da estação estivéssemos vestindo essa moda, atrairíamos, no máximo, machistas-urubus nos chamando de gostosas.
vestindo aquele modelinho, pensei que ele era a cara da minha prima, que tem todo um armário de shortinhos, sainhas, vestidinhos e se sente linda com eles. acho que ela nunca foi chamada de "puta" por isso.
pensei em experimentar o tipo de beleza que o vestidinho me investia, mas olhando de perfil, percebi que os seios eram pequenos demais para preencher a frente única e, por isso, eles ficavam aparecendo entre as folgas do pano.
a blusa era tão fresca quanto e, ao invés de revelar os seios e marcar a bunda, ela mostrava os ombros e era aberta na cintura. me fazia sentir bonita também.
optei pelos 12 reais e guardei o vestido na arara.
talvez minha incerta memória tenha inventado essa história para justificar o fato de eu não ter levado o vestido. talvez eu não o tenha levado, porque sabia que, com ele, seria julgada: não na estação, não na rua, não no shopping, não no baile, mas na escola, na faculdade, no emprego, na casa, na igreja.
em todos esses lugares haveria o machismo, haveriam vozes a desrespeitar meu desejo de me achar bonita nele (pensando mau ou se aproximando para me adular, cantar ou estuprar), mas na escola, na faculdade, no emprego, na casa e na igreja eu seria reprimida, xingada, obrigada, provavelmente, a trocar de roupa.
autocensurei-me e não comprei o vestido. fui, eu mesma, machista e internalizei o medo dessa repressão, desses olhares, dessas vozes.
hoje, esse tempo depois, uma moça, regulando a idade comigo, perdeu sua autonomia, deixou de ir às aulas, foi expulsa e reintegrada à universidade: tudo por causa de um vestidinho rosa, tão parecido ao que eu experimentei.
hoje aquele medo se avulta: se o vestido fosse comigo às aulas na faculdade de filosofia da USP ou da escola de comunicações, não estaria eu disposta a gritos e xingos? estaria.
eu temeria as caminhadas solitárias e andaria sempre com um guarda-chuva na mão para evitar possíveis agressores.
nosso mundo ainda sonha em branco e vestida de terno. a sociedade de gênero.
e na sociedade para além do gênero? eu teria comprado o vestido, a geisy não teria sido estuprada por vozes e olhares.
lembrança farmacológica
há pouco, pouco percebi de novo que gosto demais de poesia: o gênero do bregas, dos bêbados e dos brutos. eu me enquadro entre os primeiros.
talvez eu não quisesse gostar ou tenha escolhido varrer os buracos brancos das páginas enchendo-os com palavras minhas. palavras estéreis, histéricas, tentativas sempre vãs construção de sentido no mundo sem sentido.
da palavra perene, os contadores de fato(s) nada sabem. é de remendar o passado com dizeres periódicos que padeço e a poesia é precisamente o remédio para minha fala iludida pelo real (com erre maiúsculo).
as potências do vazio abrem caminhos.



rito
uma criancinha foi atropelada pela história e mal deu para respirar.
naquela noite, a cama no meu quarto de infância era puro bálsamo. chegar à casa, jantar e conversar afastava os medos; dava a impressão de que aquela anormalidade era fruto apenas do pessimismo, drama familiar.
posso ouvir o choro incessante da prima que fuma seus nervosos cigarros no quintal. as explicações vêm reorientar os pensamentos e abafar aquilo que, de olhos vermelhos e rosto molhado, que eu tinha escondido em uma viagem de ônibus municipal.
no escuro, sei que se abrisse porta de casa respiraria um ar mais denso que o usual - um ar prenhe das respostas que não queremos ouvir. era como se, naquele dia, tivesse havido um banho de pipoca e arruda bem de frente à porta e a mãe estivesse proibindo que saíssemos para ver o ritual; a diferença é que a gravidez desse novo ar não tem mais qualquer coisa a ver com os espíritos ou forças ou cores que o velho espantava com os ramos da arruda.
antes de pegar no sono, olhei bem para a parede mofando ao lado de minha cama: o lilás estava sendo consumido pelo verde; bem perto do meu nariz, o cinza do cimento se revelava em uma área já degradada. tenho a impressão de que há dez anos essa parede tinha a mesma aparência, então passo a mão no cimento à mostra e a parede se desfaz em meus dedos; passatempo familiar.
o telefone toca, mas não ouço. sem demora os anjos mobilizam-se para organizar tudo em silêncio, calma e cuidadosamente. saem os três de carro, vão ao necrotério.
pouco mais de uma hora depois, abro os olhos na penumbra produzida pela luz amarela do corredor a invadir o quarto. "filha", dizem, e eu apaguei da memória as palavras que, em seguida, diluiram minha solução balsâmica para as dores particulares. tínhamos perdido - eles, talvez mais do que eu.
"eu sabia" vem à boca pouco antes de perder o controle completo sobre o sentimento de meus olhos, mãos, cabeça, estômago, coração. vontade de vomitar, sal de lágrimas.
a radiola interna lembra, como um tipo de oração, "olorum panté, ossum mamã". mas a canção não é propriamente minha: é da história e da natureza dos homens, aquilo que a voz do velho tecia e retecia com maestria inexplicável.
o cheiro de um lírio: paz e tormento. o peito chacoalha como se quisesse expulsar toda a água que restou depois do último soluço. isso é como a história explodindo dentro da gente; o nosso corpo vertendo palavras não ditas, permitindo-se vazar.
não consegui guardar todas as frases do velho nos potes maionese, nas caixinhas de pedras, nos armários de madeira, nos quartinhos. perdi o velho, suas narrativas, sua presença; ficaram as relíquias, os santos, uma luz branca e a tal risada.
"bença, vô".
Tatiane at 01h48 .adivinha só: remédios para o estômago podem causar depressão.
filho de deus
fez-se um buraco no centro do peito do homem.
fez-se um buraco profundo, escuro, um vácuo.
o buraco criou braços e pernas, trocou baço e esterno:
tirou-lhe o coração da cabeça, deu aos pés um ritmo mórbido
colheu os sabores de seu estômago e exilou-o de toda a paixão.
cordeirodedeusquetiraisopecadodomundo, tende piedade.
medo da morte: fazia um tempão que eu não sentia.
jornalista, eu acho, não pode esquecer que morre.
(um poemete ruim e outro um pouco menos ruim).
sofro
da dificuldade de alheamento.
o outro me olha, me chama; o outro exclama e, histérico, arranca meus cabelos.
alheio a meu olho, ele me entrega e descreve detalhadamente a incompetência minha
em tentar escrever o que dele não existe .
peso morto
a poesia é um rato preto escorrendo pelos bueiros e fugindo por minhas mãos.
(colhidos em dias barulhentos, fechados, egoístas).
Tatiane at 00h02 .buzina
essa janela é infernal. ônibus, taxistas, jovens gritalhões, orelhão, música do super-mercado; ouvimos praticamente tudo desse segundo andar.
tenho todos os motivos do mundo para gostar do bairro, mas prefiro resmungar e aguardar o dia em que minha grande janela abrirá seus olhos para um pé de manga.
são paulo não é uma cidade.
pão com patê
hoje, durante o lanchinho da meia-noite, o lucas comentou qualquer coisa como "não é bom você circular só na universidade essas suas reportagens".
claro que eu concordei e tal, e acho isso mesmo (que a produção da universidade precisa ser arejada); mas dá tanta preguiça.
veja bem; acabamos de colocar no ar um especial sobre rituais do claro!, o jornal literário-experimental que produzimos nesse segundo semestre na faculdade.
eu sou tão preguiçosa que até agora não coloquei no ar os vídeos de minha fonte cantarolando, rindo, contando história.
aí, pensando no que o lucas falou, porque eu sempre penso bem depois que ouço as considerações dele - até porque eu penso muito mal, perguntei-me: por que não voltar a postar? por que não postar meus textos todos?
sim, mas aí isso vira um daqueles blogues em que jornalistas inscrevem as matérias que fazem entremeadas por filosofices, achismos e registros de seus cotidianos banais.
afinal, é muito fácil escrever besteira na internet. como escrever besteira é profissão pra muito jornalista, está dado o desastre.
não estou decidida a publicar nada, mas pelo menos estou pensando positivamente sobre as características do nome desse blogue. "isto não é papel" parece falar de jornalismo e de realidade em algum remoto sentido.
alguém que não fala besteira
é o pedro alexandre sanches.
eu tinha virado fã da crítica de arte dele depois que li uns trechos de tropicalismo, decadência bonita do samba, para a aula do alambert de história social da arte. nesse livro ele faz uma leitura crítica, negativa e genial da estética tropicalista.
daí que eu gosto muito de ler os pitacos culturais dele na carta capital e na edição dessa semana ele soltou uma muito boa sobre aquela mallu magalhães. começando com a notícia de que está sendo lançado o primeiro disco da cantora mirim, o pedro alexandre compara a efusividade da crítica em relação à música da menina mallu à maneira acrítica como todos se encontram encantados com a também mirim apresentadora maysa, do bom dia e companhia.
eu, de minha parte, não ouvi sequer uma nota da boca da cantorinha, mas concordo com o pedro alexandre.
parando de falar besteira
vou voltar a escrever coisas de verdade.
estou embaraçada com palavras sobre a ana c. e o editor está querendo minha cabeça por isso.
não é fácil falar sobre ela pra mim; é como um pedaço da pele do meu antebraço esquerdo: se cortar dói, se não cortar fica presa à distância intermediária dos antebraços.
podia ser poesia fácil. não é poesia - é poema.
por falar em poema, ler: massacre, carlos drummond de andrade. um assombro.
Um, dois, três: quero que o semestre se acabe em braços!
Eu não deveria admitir publicamente, mas "ah, o amor...".
E dessas mulheres que escrevem, uma me tem cativada desde alguns meses e, nesse momento em que não posso parar de pensar, uso mel para colar as palavras dela aqui.
Este é só o poema mais bonito de Ana Paula Ribeiro Tavares, que nasceu no Lubango e tem a palavra enraizada. O leitor deveria folhear mais a bíblia.
"Tratem-me com a massa"
"Amparai-me com perfumes, confortai-me com maçãs
que estou ferida de amor..."
Cântico dos Cânticos
Tratem-me com a massa
de que são feitos os óleos
p'ra que descanse, oh mães
Tragam as vossas mãos, oh mães,
untadas de esquecimento
E deixem que elas deslizem
pelo corpo, devagar
Dói muito, oh mães
É de mim que vem o grito.
Aspirei o cheiro da canela
e não morri, oh mães.
Escorreu-me pelos lábios o sangue do mirangolo
e não morri, oh mães.
De lábios gretados não morri
Encostei à casca rugosa do baobabe
a fina pele do meu peito
dessas feridas fundas não morri, oh mães.
Venham, oh mães, amparar-me nesta hora
Morro porque estou ferida de amor.
Essa janela venta muito - é um pedaço difuso e aerado de plástico.
Daí eu acordava cedo e via aquela cara no sofá: as pernas se cruzavam sobre a cabeça e seus olhos me dormiam profundamente.
Um dia apareceu um disco e sobravam lembranças risonhas, musicais, videntes.
Isso não é uma história; é outra e mais.
A professora disse assim que era pra gente fazer uma crônica para a semana que vem. Isso e uma tentativa dá na mesma, não?
Perdi todas as minhas palavras - falam os bem-aventurados de cortar.
"Nuestro reino era así: una gran curva de las vías acababa su comba justo frente a los fondos de nuestra casa. No había más que el balasto, los durmientes y la doble vía; pasto ralo y estúpido entre los pedazos de adoquín donde la mica, el cuarzo y el feldespato -que son los componentes del granito- brillaban como diamantes legítimos contra el sol de las dos de la tarde. Cuando nos agachábamos a tocar las vías (sin perder tiempo porque hubiera sido peligroso quedarse mucho ahí, no tanto por los trenes como por los de casa si nos llegaban a ver) nos subía a la cara el fuego de las piedras, y al pararnos contra el viento del río era un calor mojado pegándose a las mejillas y las orejas. Nos gustaba flexionar las piernas y bajar, subir, bajar otra vez, entrando en una y otra zona de calor, estudiándonos las caras para apreciar la transpiración, con lo cual al rato éramos una sopa. Y siempre calladas, mirando al fondo de las vías, o el río al otro lado, el pedacito de río color café con leche".
Silêncio.
Isto não é papel e as vastas impotências de ar. Quando alguém tem ciúmes. Quando alguém se molha. Quando alguém se entrega. Quando alguém inventa. Quando alguém se tranca. Isto não pode ser papel. Biblos fazia mais sentido (com as mãos) que Manaus.
Aquele pátio era mãe de todo o sentido mudo e aí faltavam-me as palavras.
Agora já vivemos - podemos ir.
Fearless on my breath.
José González é sempre o responsável por me fazer perder em previsões e sensações negligenciáveis.
Quero ornatos e só.
On the verge of ruin
You'll see it all clear
How steep the fall is
How long way back is
on the verge of success
It's all white and fluffy
Horizons are blurred
Horizons are blurred
By the time you reach you goal
Tongues will be twisted
To the point where you'll lose
track of your soul
Interlúdio
Então Deus olhou lá de cima e tentou segurar a risada. Não deu - caiu em um maquiavelismo lacônico bem típico desses santíssimos.
- Muá. Rá. Rá. Fodeste-se.
Verso
Fazia algum tempo que não vestia o uniforme do Oscavo - adoro essa vontade de potência (estuprando Schopenhouer) da escolinha. Prefiro a modéstia de minha escola primária: "Sobreviventes do Nagib...". Me lembra Cauby, Janis e Pistols, de qualquer forma.
Uniformes azuis te preparam para grandes percursos.
São quase 3h e eu aqui, afundando meu semestre.
Semana passada alguém da faculdade comentou nessas rodinhas de corredor algo como: "Fulano é o autor do Gerador de Lero-Lero". Eu queria lembrar quem é o dito Fulano para poder rir de novo da constatação.
Grande. Quero uma tia afro-americana e gorda me dando tapinhas na cara e gritando como Aretha: You better clean up your lil' nasty bedroom, nigger!
Bom é que tenho uma mãe-preta que se encarrega de dizê-lo finalizado com um nigger em muito melhor estilo: Sua nega preta!
Este ano eu não vou à vila.
Now at the central station
No time for being patient
I feel like going home
But at the same time, I don't
Black Cab