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Tati
- esporadicamente Tatiane. 21 anos.
Prosa e verso em um só saco de mentiras e verdades.
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rito
uma criancinha foi atropelada pela história e mal deu para respirar.
naquela noite, a cama no meu quarto de infância era puro bálsamo. chegar à casa, jantar e conversar afastava os medos; dava a impressão de que aquela anormalidade era fruto apenas do pessimismo, drama familiar.
posso ouvir o choro incessante da prima que fuma seus nervosos cigarros no quintal. as explicações vêm reorientar os pensamentos e abafar aquilo que, de olhos vermelhos e rosto molhado, que eu tinha escondido em uma viagem de ônibus municipal.
no escuro, sei que se abrisse porta de casa respiraria um ar mais denso que o usual - um ar prenhe das respostas que não queremos ouvir. era como se, naquele dia, tivesse havido um banho de pipoca e arruda bem de frente à porta e a mãe estivesse proibindo que saíssemos para ver o ritual; a diferença é que a gravidez desse novo ar não tem mais qualquer coisa a ver com os espíritos ou forças ou cores que o velho espantava com os ramos da arruda.
antes de pegar no sono, olhei bem para a parede mofando ao lado de minha cama: o lilás estava sendo consumido pelo verde; bem perto do meu nariz, o cinza do cimento se revelava em uma área já degradada. tenho a impressão de que há dez anos essa parede tinha a mesma aparência, então passo a mão no cimento à mostra e a parede se desfaz em meus dedos; passatempo familiar.
o telefone toca, mas não ouço. sem demora os anjos mobilizam-se para organizar tudo em silêncio, calma e cuidadosamente. saem os três de carro, vão ao necrotério.
pouco mais de uma hora depois, abro os olhos na penumbra produzida pela luz amarela do corredor a invadir o quarto. "filha", dizem, e eu apaguei da memória as palavras que, em seguida, diluiram minha solução balsâmica para as dores particulares. tínhamos perdido - eles, talvez mais do que eu.
"eu sabia" vem à boca pouco antes de perder o controle completo sobre o sentimento de meus olhos, mãos, cabeça, estômago, coração. vontade de vomitar, sal de lágrimas.
a radiola interna lembra, como um tipo de oração, "olorum panté, ossum mamã". mas a canção não é propriamente minha: é da história e da natureza dos homens, aquilo que a voz do velho tecia e retecia com maestria inexplicável.
o cheiro de um lírio: paz e tormento. o peito chacoalha como se quisesse expulsar toda a água que restou depois do último soluço. isso é como a história explodindo dentro da gente; o nosso corpo vertendo palavras não ditas, permitindo-se vazar.
não consegui guardar todas as frases do velho nos potes maionese, nas caixinhas de pedras, nos armários de madeira, nos quartinhos. perdi o velho, suas narrativas, sua presença; ficaram as relíquias, os santos, uma luz branca e a tal risada.
"bença, vô".
Tatiane at 01h48 .